Sento-me na cadeira da insónia porque o tempo voa entre as mãos de quem não tem asas para o acompanhar. É súbita a forma como permanece lentamente o desassossego, é razia a forma como deixa o corpo sem pele, sem revestimento, sob uma série de impensáveis agressões. Francamente move-se o tempo parado na bolha de que todos são donos, e de lá promete-se não sair mais nada, mas foge a opacidade dessa bolha na pequenês de um mundo que não se revela, que apenas se avalia. Sinto assim essa dor de úlcera que ultrapassa qualquer sono, qualquer sonho. Nem me permito falar em sonhos. Há uma planta que foi semeada no destino, que acaba de morrer, e deixa-se assim permanecer, morta, na falta de consciência da necessidade de água ou alimento, já não se deixa sequer ser regada, ser adubada. Já não cresce.
Sento-me na cadeira da insónia para falar de uma planta que não vive, porque um dia foi um sonho.
domingo, 31 de julho de 2011
sexta-feira, 22 de julho de 2011
Vivo entregue a este mundo, que claustrofóbicamente não consegue responder ao que sinto. E sem pedir mais, restam-me apenas as palavras como refúgio de um sonho que sonho cegamente, e de seguida, desfaço, como um tiro bem no meio da alma. Esta alma que não me dá calma e se repete constantemente numa espiral sem razão, sente-me como uma nau a afundar num mar sem ondas. Forma-se, assim, um corropio de emoções que se confundem. Construo então uma frieza naquilo que fica do que alguma vez foi doce, do que alguma vez criou esperança, semeando-me no desassossego.
Aos poucos esta tristeza transforma-se em raiva, numa raiva desse mundo que não me responde, que não me corresponde. Hoje entregar-me-ia a uma sala sem portas ou janelas, nua, nua de mim, nua de tudo. Sem deixar que a criatividade me confunda, sem me deixar envolver por metáforas. Mas porra, que preciso delas para viver.
Não consigo vencer o mundo, não o consigo vender na esperança de algo em troca. Deixo-me, então, adormecer no chão desta varanda, olhando para o gradeamento que me segura, pensando que talvez não me sossegue o insossego. Deixo-me adormecer, sem o querer, sem conseguir, mas nada me mantém acordada. Tento ouvir o mundo, mas nada, nada, nada ele me diz. Não vou sonhar.
Aos poucos esta tristeza transforma-se em raiva, numa raiva desse mundo que não me responde, que não me corresponde. Hoje entregar-me-ia a uma sala sem portas ou janelas, nua, nua de mim, nua de tudo. Sem deixar que a criatividade me confunda, sem me deixar envolver por metáforas. Mas porra, que preciso delas para viver.
Não consigo vencer o mundo, não o consigo vender na esperança de algo em troca. Deixo-me, então, adormecer no chão desta varanda, olhando para o gradeamento que me segura, pensando que talvez não me sossegue o insossego. Deixo-me adormecer, sem o querer, sem conseguir, mas nada me mantém acordada. Tento ouvir o mundo, mas nada, nada, nada ele me diz. Não vou sonhar.
terça-feira, 5 de abril de 2011
Perdi a consistência nas palavras que agora se afogam. Tomara eu os sonhos serem apenas os sonhos, tremendos na realidade que os procria.
Dói-me o corpo naquilo que ele me traz e não se envolve, e essas palavras que um dia se disseram deixam-se agora cair pelos actos que nos sonhos se demonstram mais fortes, mais precisos, mais imaginados, mas mais reais.
Deixo, então, o tempo ir-se nas miragens que ficam do que hoje sonhei, e as quais disse esperar recordar-me no seu instinto, na sua paixão, como incentivo para me deixar levar quando não durmo... Miragens essas que substituem um abraço, que substituem uma loucura, que substituem qualquer coisa à qual um dia me entreguei sem que me deixasse dar-lhe significado. Hoje estou carente disso.
Mas esta dor no meu corpo não me deixa sequer suportar um suspiro. Deixei-me cegar de toques e sou ignorante de saborear cada olhar ou de ouvir cada arrepio.
Jurei-me ter-me nas minhas colisões, mas colidi com o inatingível e agora não sei mais como me restaurar. Quebrei as mágoas e perdi-me em pedaços.
Hoje acordei sem saber quem sou, e tão cedo não terei capacidade de me descobrir. Esta dor no meu corpo de me sentir imperdoada, imperdoável, de me sentir menos do que eu...
Dói-me o corpo naquilo que ele me traz e não se envolve, e essas palavras que um dia se disseram deixam-se agora cair pelos actos que nos sonhos se demonstram mais fortes, mais precisos, mais imaginados, mas mais reais.
Deixo, então, o tempo ir-se nas miragens que ficam do que hoje sonhei, e as quais disse esperar recordar-me no seu instinto, na sua paixão, como incentivo para me deixar levar quando não durmo... Miragens essas que substituem um abraço, que substituem uma loucura, que substituem qualquer coisa à qual um dia me entreguei sem que me deixasse dar-lhe significado. Hoje estou carente disso.
Mas esta dor no meu corpo não me deixa sequer suportar um suspiro. Deixei-me cegar de toques e sou ignorante de saborear cada olhar ou de ouvir cada arrepio.
Jurei-me ter-me nas minhas colisões, mas colidi com o inatingível e agora não sei mais como me restaurar. Quebrei as mágoas e perdi-me em pedaços.
Hoje acordei sem saber quem sou, e tão cedo não terei capacidade de me descobrir. Esta dor no meu corpo de me sentir imperdoada, imperdoável, de me sentir menos do que eu...
domingo, 3 de abril de 2011
Sento-me à janela deste quarto improvisado para me fechar. Prendo-me entretanto às cerejeiras, que carregadas de flor fazem parecer que tudo à minha volta está coberto por um manto de neve. Apesar de tudo anseio as noites de verão, que vão chegando pela multiplicação das horas durante o dia. Aquele azul intenso que se distingue por entre as estrelas cativa-me. Hoje não, hoje o céu está encoberto, e forma-se nevoeiro, o que me leva a permanecer neste "meu" canto, receosa das temperaturas negativas que imagino lá fora. Ameaça chover. A chuva levará, com certeza, cada pétala das árvores. Ficarão os campos sem cor, sem vida, um misto de preto no branco (aquele que se vê do nevoeiro). Fico sem vida e anseio por sonhar.
terça-feira, 29 de março de 2011
Hoje recolho-me na solidão de um lugar que em prol dos ventos, me conserva. Preferi deixar o tempo de lado para mais tarde ser vivido, e deslocar-me sem saber onde permaneço, sem saber onde me encontro, ou o caminho. Lá fora gemem as tristezas do que não foi vivido, mas encontro conforto nas estrelas do que já vivi, e assim sento-me à janela do inalcançável pensando sobre o que esse vento levou, e o que foi levado pelo mesmo.
Sonâmbula de mim mesma toco nas palavras que me disseste, nos gestos que me sentiste. Apetece-me chorar, mas não vale a pena impedir-me de ver com clareza essas estrelas que cintilam no nosso céu. Soube-te aqui uma vez, comigo. Por vezes ainda sinto aquela inspiração de sonhar entre as árvores, de voar entre paredes. Quase que num masoquismo imperdoável, reservei esse mesmo quarto, essa mesma janela, as mesmas árvores, as mesmas paredes.
Recuso-me a mim mesma a culpa de me ter afastado, mas com o tempo sei que terei que me habituar a esta solidão a que me submeti, a esta mentira que vivo na esperança de considerar verdade. Fugir de mim mesma, dos restos que te deixei... Ganhei dentadas marcadas na minha pele e no meu corpo de tudo aquilo que te dei, e fiquei com as cicatrizes que vegetam silenciosamente naquilo a que chamam alma. Depois de tudo, sinto que não a tenho, à alma.
Sonâmbula de mim mesma toco nas palavras que me disseste, nos gestos que me sentiste. Apetece-me chorar, mas não vale a pena impedir-me de ver com clareza essas estrelas que cintilam no nosso céu. Soube-te aqui uma vez, comigo. Por vezes ainda sinto aquela inspiração de sonhar entre as árvores, de voar entre paredes. Quase que num masoquismo imperdoável, reservei esse mesmo quarto, essa mesma janela, as mesmas árvores, as mesmas paredes.
Recuso-me a mim mesma a culpa de me ter afastado, mas com o tempo sei que terei que me habituar a esta solidão a que me submeti, a esta mentira que vivo na esperança de considerar verdade. Fugir de mim mesma, dos restos que te deixei... Ganhei dentadas marcadas na minha pele e no meu corpo de tudo aquilo que te dei, e fiquei com as cicatrizes que vegetam silenciosamente naquilo a que chamam alma. Depois de tudo, sinto que não a tenho, à alma.
domingo, 26 de dezembro de 2010
Falta-me o Porto, inspiração que uso para escrever, um desaparecer de dores e angústias; fujo-lhe. O Pedro não está aqui, há muito que o não vejo. Concentram-se em mim pensamentos que não venero, que de todas as vezes que me deixo afundar neles me dá vontade de fugir. É isso, vou pegar no carro e vou até à praia, sentar-me na areia, ouvir o mar chegar à sua beira, deixá-lo sussurrar-me palavras que não se soletram. Gostava de cheirar o Verão e sentir a liberdade que ele me costuma trazer. Mas não me perco por isso. Gostava de o fazer... sozinha. Tentar construir na areia aquela torre que um dia desenhei em sonhos, e deixar que o mar a leve...
quinta-feira, 16 de dezembro de 2010
Há uma multidão que consome o pouco que a música nos pode dar. Criam-se expectativas sem qualquer objectivo, como se se soubesse o amanhã, e que o amanhã não há. Fazem-se promessas como se houvesse a perder o que o mundo tem, choram-se tristezas como promessas perdidas no que não há. E é esta a visão que Pedro tem do mundo. Por ele passaram sonhos, até que julgou partilha-los com a pessoa certa e, posterior, se julgou incapaz de sonhar... por tantas vezes.
Vive no que diz, então, ser o seu mundo, e apesar de estar rodeado de música, procura outra. Sente-se claustrofobicamente violado por razões que nem o que o compõe justificam. Não há sorrisos neste mundo.
Pedro acha-se único. Decerto alguma razão leva a que se feche. Talvez sinta que nada mais tem para dar, mas porquê? Leio no seu olhar que pretende fugir, mas teria que enfrentar aventuras de novo, pelas quais já passou, pelas quais não passou e nas quais se rejeita envolver. Assim, deixa-se estar no seu canto, fechado na música que mais ninguém ouve.
Pede silêncio, o Pedro, mas grita bem baixo na esperança que o ouçam. Nas suas entranhas guarda recordações que nunca partilhou, talvez porque não se lembra, talvez porque o evita no tempo. À sua volta criam-se hábitos de convergência de acções, com as quais não concorda, mas vai-se deixando ficar entre elas. Talvez o álcool crie essa barreira, talvez a desfaça tanto que o desmaterialize no(s) mundo(s) do(s) qual(is) foge. Porquê ninguém sabe, mas imagina-se hipotético, imagino-o, assim, hipotético.
Não trouxe nada para escrever. Roubei a folha de um caderno para me deixar acompanhar pelas palavras que tento esquecer, tal como Pedro, que as esquece apoderando-se delas nas suas rimas.
Subitamente há uma necessidade de esquecer o seu mundo e partilhar algo com outro(s). Talvez a luz da sua estrela, e fá-la brilhar. Ouve-se tocar a sua música.
Vive no que diz, então, ser o seu mundo, e apesar de estar rodeado de música, procura outra. Sente-se claustrofobicamente violado por razões que nem o que o compõe justificam. Não há sorrisos neste mundo.
Pedro acha-se único. Decerto alguma razão leva a que se feche. Talvez sinta que nada mais tem para dar, mas porquê? Leio no seu olhar que pretende fugir, mas teria que enfrentar aventuras de novo, pelas quais já passou, pelas quais não passou e nas quais se rejeita envolver. Assim, deixa-se estar no seu canto, fechado na música que mais ninguém ouve.
Pede silêncio, o Pedro, mas grita bem baixo na esperança que o ouçam. Nas suas entranhas guarda recordações que nunca partilhou, talvez porque não se lembra, talvez porque o evita no tempo. À sua volta criam-se hábitos de convergência de acções, com as quais não concorda, mas vai-se deixando ficar entre elas. Talvez o álcool crie essa barreira, talvez a desfaça tanto que o desmaterialize no(s) mundo(s) do(s) qual(is) foge. Porquê ninguém sabe, mas imagina-se hipotético, imagino-o, assim, hipotético.
Não trouxe nada para escrever. Roubei a folha de um caderno para me deixar acompanhar pelas palavras que tento esquecer, tal como Pedro, que as esquece apoderando-se delas nas suas rimas.
Subitamente há uma necessidade de esquecer o seu mundo e partilhar algo com outro(s). Talvez a luz da sua estrela, e fá-la brilhar. Ouve-se tocar a sua música.
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