sexta-feira, 30 de maio de 2014

Hoje apareci porque me faltava preencher uma página em branco. Fiz por recalcular abismos e tecer conquistas felizes para me acreditar numa grande queda. Apareci sem querer, talvez porque me faltasse a vontade, talvez porque a defendia demais, apareci para te escrever uma qualquer carta que nunca lerias desta página em branco. Fiz-me cega, surda e muda para deixar de interpretar castigos, e me fazer crer que não existem tais coisas, castigos. E agora bêbada da minha razão estou inconsciente a escrever esta qualquer carta (mais uma) que sinto de impossível leitura, quais palavras qual quê!
Senti a mesma energia quando te toquei, a mesma energia que senti ao dar a mão a um corpo morto que tanto tinha para dar. Pois, ainda me recordo. Era a minha avó, que me fez sorrir de emoção mesmo no leito de morte, há já uns anos. E eu senti o mesmo quando te toquei. Será que morremos? Será que morremos sem sequer termos nascido? E quando eu morrer, e tu morreres, teremos a mesma emoção e a mesma energia para dar? Não me suicido a pensar nisso, mas já morri duas vezes nos teus braços, longe deles, quero dizer.
Hoje apareci porque me fazia falta esquecer, e a bêbada razão teima em fazer-se perder enquanto o digo, se o digo, pois não entendes. Já morreste quantas vezes? Eu, muitas. Já morri muitas vezes, de morte matada e de morte morrida, já mo propositei e talvez seja a hora de morrer de novo, mas não sei aonde. Dá-me ideias. Dá-me ideias que sejam longe dos teus braços e que me tornem fomenta de viver de novo. Porque não dá para morrer de novo assim.
Perdoa-me usar esta palavra tantas vezes, sei que dói. Sei que é egoísta. Ou soa como tal. Ao menos sentiste? Diz-me, sentiste? Porque é eterno purgatório andar à deriva com tanta energia para dar. Não lhe chamo amor, chamo energia. O amor tenho eu a quem o entregar.
Hoje joguei ao jogo do espelho, aquele que se joga dois a dois e em que se repetem os movimentos do companheiro, sem qualquer toque físico. Hoje fui eu que "comandei". Foi a isso que jogámos? Pois tenho a dizer-te que fizeste batota, fizemos batota, tocámo-nos. Mas ainda não consigo entender quem comandou, quem copiou os passos de quem.
Hoje apareci. Vim escrever sobre coisas eruditas da minha biblioteca de sentimentos que ninguém quer consultar. E tu, que gostas tanto de ler também te recusaste.
Afinal o que é fugir. Afinal o que é fingir? Não consigo fingir mais, foge-me a criatividade pelo umbigo. E eu passo horas a olhar p'ro meu umbigo para a tentar agarrar, o raio da criatividade que não me faz falta nenhuma. Não sei fingir e tu pediste-me para não fugir, e eu fiquei... agora, sozinha, a olhar p'ro meu umbigo, rica maneira de passar o tempo.
Mais um texto escrito numa página em branco que me faz gastar mais um momento em que podia fingir, ou fugir, ou tudo aquilo que me pediste ou não para fazer. Um momento em que te podia receber com retorno. Ciente de mim, nem sei em que me torno.

quinta-feira, 22 de maio de 2014

Não saberei como escrever uma tese sobre a vida, um mistério tão volátil. Hoje acho que sei que os que a sofrem vivem-na mais, no sentido da sua sensibilidade. Os que a criam vivem-na duas vezes mais, vivem a que sofrem e a que inventam para curar, há sempre uma vida a mais para curar na mesma vida. Se não houver criatividade no seu indivíduo, como dono, haverá alguém disposto a criar outra vida p...ara mais alguém. Acho que há sempre vontade em nós no mais profundo de inventar novas vidas, ou antes houvesse, para oferecer. "Toma, é para ti, criei com o meu coração e estou a oferecer-te, poderás precisar dela, poderás não precisar, mas uma vida a mais dá sempre jeito. Cuida-a, também eu a cuidei para ti.". Há os que não sabem viver, mas nunca ninguém inventou um tratado sobre como viver a vida, que conversa é essa de vida fisicamente saudável, de mentes rectas, que conversa é essa de se evitar os vícios físicos ou mentais, se na grande parte das vezes não conseguimos acompanhar mente e corpo ou descodificar amor e carinho. Tudo difere. Por vezes gostava de ser dáltonica nem que fosse por um dia para escrever a tese sobre como viver a vida com cores diferentes. E assim como cega, ou surda ou até muda, nem que fosse por um dia (porque no fim de contas aceito-me bem com a variedade de sensações que me foram concedidas nesta vida). Num sopro, empurrão ou não, deixamo-nos ser fracos ou fortes demais, ingratos ou agradecidos por toda a pouca ou muita vida que vivemos. Mas não pretendo escrever uma tese sobre a vida, seria puramente egoísta tal como ela hoje nos obriga a ser. Aceito-me. Aceitar-me-ia em casamento mil vezes, tantas como me pediria em divórcio, mas seria eu, consciente de mim. Não posso oferecer mais que isso. A mim mesma, até. Estou aqui, hoje. Tenho uma vida guardada para amanhã.

terça-feira, 20 de maio de 2014

Bem-vindo, Inverno. Agora que chegaste, as árvores já com folhagem deixam sombras à minha janela que, deseloquentes, me criam medos. Agora que chegaste não consigo distinguir a chuva que cai nos candeeiros de rua, se chove muito, se chove pouco. Bem-vindo. Deixo a janela fechada do quarto pois o frio repentino que chegou não me deixaria descansar, se a deixasse aberta, e mesmo aberta, tu não sairias. Bem-vindo, Inverno, que me molhas os pés quase na esperança de achares que é a única forma de te fazeres tocado. Tretas! Olá, e já que permaneces, traz também a neve, ela que fertiliza as colheitas para novos e felizes agoiros. Hidrata-me também a pele do rosto para que quando vier o Verão eu possa sorrir melhor. Não te faças de cobarde, já que nessas tuas cobardias de só apareceres excêntrico do mundo deixas tudo virado do avesso. Se queres, leva também as folhas fresquinhas das árvores lá fora, que necessito para me acalmarem o calor nos dias mais quentes que me trazes, Inverno.
Fica, se queres conforto. Rouba-o violentamente à minha pele, leva tudo. E o mar, já visitaste o mar? Porque teimas em ficar aqui, aconchegado no meu calor? Que sejas bem-vindo, afinal. Sou hospitaleira, recebo-te com agrado, afinal. E leva tudo, quando saíres. Leva o frio também.
"Gostava de ser personagem de romance, que me escrevessem, que me descrevessem, que soubessem de mim ínfimo pormenor, mas já que o não posso, escolher-te-ia a ti, na inocência que não tens, ou que o teu corpo não sabe mentir. Fazer de ti altivo mendigo de sentimentos prescritos à tua gerência embriagada de sentir. E achares-te menos que a tua essência, porque tu, sim, necessitas ser escrito, descrito, perceptível aos olhos de quem não te sabe ler."(29.04.2014)
"Mas quem sou eu, se alucino no mais crente dos caminhos, ao achar que sou dona dos meus domínios por perder a razáo feita do que é meu? Deixo-me antes dormir que é o melhor que faço, ao menos sou dona do meu cansaço, o tenho por mim pois ninguém mo deu."
"Li hoje já não sei bem onde que a saudade é mesmo assim: resulta das lacunas de aceitação, da falta de cumprimento das promessas que nos fazemos. Li num sítio qualquer, já não sei onde, que a saudade não passa disso, dependencia de carinhos que não soubemos agarrar na hora certa, que a saudade não passa de uma tormenta atormentada do que não ficou, do que não nos deixámos ter. Li já não sei bem onde que a saudade não passa." (13.05.2014)
"Hoje não quero admitir que não sei o que escrever. Hoje escreveria até adormecer se a vontade de dormir o exigisse. Hoje escreveria só para não ter que pensar, escreveria linhas na minha mão: linhas curvas, linhas rectas, linhas em zig zag, uma linha de comboio para viajar, um carrinho de linhas para coser as feridas do coração, uma linhagem de reis para aprender a reinar, tantas e tantas linhas que escreveria na minha palma! O três em linha para me jogar e mais duas ou três linhas até dizer "Mais não!". Tudo para disfarçar as linhas que nela ficaram da tua mão." (13.05.2014)
"Sentou-se ali no canto porque precisava de agarrar o silêncio. Ao menos o silêncio. O tempo, o calor, o suor, o amor e o fado, até o fado, lhe escorriam pelas mãos, como insoluveis nas suas palmas, fugiam ao ritmo de uma valsa interminável. Uma valsa que se sujeitava a dançar sozinha para não se perder no passo, e sentada ali no canto escutava toda essa valsa no silêncio. Apaixonava-se aos poucos ...com a rapidez efémera de um momento, e até a paixão lhe fugia. "Não vamos longe assim", dizia ela. Levantou-se e deixou o espectro do amor colado na poltrona, só para ir ver a Lua lá fora. Foi perguntar-lhe se ela dançava a valsa, convidou-a para dançar. E assim foi, longe do amor e com a paixão a escorrer-lhe pela mão, agarrou a Lua. Sabia que essa também lhe fugiria um dia, mas "Tu voltas", dizia-lhe em sussurro, "Volta, por favor, e traz-me de volta"."
Fiquei às escuras, e nem na rua há luz. Por momentos fiquei sem saber o que me seduz no entretanto. As escórias dos momentos comem o meu intento de paixão. E fica tanto pisado no chão. Resta-me a vontade de escrever como metamorfose nefasta de amor, ao ponto de forçar-me o apagar o seu fervor, no que me fica. Não me moldo a quereres, e se algum dia quis dizer tudo, escrever tudo, foi talvez aí que perdi. "Palerma" do insossego que sou, porque o sou, porque talvez não seja mais nada que o que escrevo. Ninguém vive para dizer que ama, e tal como me disse o meu pai, um dia destes, não devemos pôr o amor de ninguém ou por ninguém acima do amor de Deus. Deus quis amar-me e eu deixei, inconsciente, de receber esse amor, e Ó Deus, como lhe sinto falta.
Fico-me às escuras, na rua já há luz. Mas continuo sem saber o que me seduz neste entretanto que me comete o pecado de não saber mais. Oh Senhor, iluminai o meu caminho, fazei-me sonhar se o destino de não me querer é maior, se o Destino é maior, se é maior que o meu amor.

terça-feira, 6 de maio de 2014

Não. Não vou fazer desta a centésima carta que te escrevi, nem vou usar mais que uma vontade. Coleccionei os teus sorrisos, os teus e os seus, os muitos, poucos, maiores ou menores, verdadeiros e até falsos. Deixei a caixa aberta e eles foram saindo, procurando outras vidas. Hoje soube perguntar-me de onde vêm as certezas de um sorriso com 92 anos. Aquele sorriso de tranquilidade que quase me julga por ser jovem e quase não sorrir. Sim, aquele sorriso que me faz questionar sobre o que é que afinal é verdadeiro no tempo. Um sorriso de paz, de aconchego.
Não vou fazer desta carta a centésima carta de amor que te escrevi, pois já não sei como isso se faz, cartas de amor. Deixei o amor guardado numa caixa aberta para quem o quisesse ir buscar. Chegou o fim do dia e ela estava vazia, mas amanhã haverá mais. Tenho a plena certeza de que amanhã haverá mais.
Coleccionar sorrisos... Ahahahah. E sem os roubar... Hilariante! E chegar ao fim do dia com a caixa do amor vazia. Pura, pura ironia!