segunda-feira, 9 de abril de 2012

Vou desenhando com gestos imaturos no meu ventre: sentimentos. Reza-me a loucura que permaneça assim, em mim, desalojada de amor ou desperdícios.
Pedaços de pele vão caindo como se no meu peso já não se sustivessem. Quase como que para ladrilhar o meu caminho, vou raspando-a, permanecendo assim no mais alto do meu ser. São pequenos gestos que dão mais cor ao chão que piso, pequenos gestos como esse, de me deixar cair, para me ladrilhar.
Não reconheço hoje a minha letra, e numa euforia imprecisa de me vir em tudo o que escrevo, não me deixo subjugar pela necessidade de nela me ver escrita.
Recebo-me na minha mão mais do que nunca na boca dos outros. Recebo-me na minha mão. Talvez no meu corpo. na minha grandeza e pequenez: recebo-me, grito-me, suspiro-me, venho-me.
São pequenos gestos, simples e pequenos gestos que me fazem duvidar se realmente me tenho. Pequenos gestos. São loucuras, calores, quase desesperos. Quase que me tiram, quase que me roubam o prazer, quase que me fazem não querer escrever.
Quase que me desprendo da natureza, quase que deixo de criar caminhos, cheiros, odores, toques, suspiros, amores. Quase que me desprendo da natureza no que ela não comporta: franqueza, fraqueza. Perdem-se quase ganhando esses pequenos gestos.
Toco-me criando em mim a dúvida: se me sinto, se me minto. Deixo de me tocar no mesmo instante, como que arrancando cabelos para tecer esta teia, para prender a veia, para cair. Para entrançar a corda. Para subir.
Vou deixando de reconhecer faces, fases, luas. Vou deixando de reconhecer palavras: despidas ou nuas.
Preocupam-me desabafos inconsequentes, sem causas ou rumores, que permanecem silenciosos neste cálice de vinho do Porto que se esquece. Desabafos inconsequentes. Imperdoáveis, frios, talvez quentes, de palavras que se esquecem, que se perdem. Que se largam. E as vontades que albergam. Ou desvontades.
Quase como de olhos fechados, na doçura de algo que amarga, vão-se esquecendo, mais uma vez, as palavras. Como suspiros.
Mas nesta vontade de ser sedutora enquanto as escrevo, torno-me invisível. Não sei o que sou, não sei quem sou, e anestesio-me assim como se fosse a única forma de me sentir. Exploro este meu narcisismo de escuro, narcisismo de negro, narcisismo de nada. De nada. Não se percebe e não se é.
Vou-me tornando escrava da solidão, da multidão. Escrava do ar que respiro, escrava de presenças, como se, ausentes, preenchessem cada espaço gelado, cada pedaço desta minha vontade de ser, de ter, nada.
É-me esta vontade no frio. na loucura, nas tremuras, no que escrevo, e não, nunca se verá.