terça-feira, 20 de maio de 2014
"Li hoje já não sei bem onde que a saudade é mesmo assim: resulta das lacunas de aceitação, da falta de cumprimento das promessas que nos fazemos. Li num sítio qualquer, já não sei onde, que a saudade não passa disso, dependencia de carinhos que não soubemos agarrar na hora certa, que a saudade não passa de uma tormenta atormentada do que não ficou, do que não nos deixámos ter. Li já não sei bem onde que a saudade não passa." (13.05.2014)
"Hoje não quero admitir que não sei o que escrever. Hoje escreveria até adormecer se a vontade de dormir o exigisse. Hoje escreveria só para não ter que pensar, escreveria linhas na minha mão: linhas curvas, linhas rectas, linhas em zig zag, uma linha de comboio para viajar, um carrinho de linhas para coser as feridas do coração, uma linhagem de reis para aprender a reinar, tantas e tantas linhas que escreveria na minha palma! O três em linha para me jogar e mais duas ou três linhas até dizer "Mais não!". Tudo para disfarçar as linhas que nela ficaram da tua mão." (13.05.2014)
"Sentou-se ali no canto porque precisava de agarrar o silêncio. Ao menos o silêncio. O tempo, o calor, o suor, o amor e o fado, até o fado, lhe escorriam pelas mãos, como insoluveis nas suas palmas, fugiam ao ritmo de uma valsa interminável. Uma valsa que se sujeitava a dançar sozinha para não se perder no passo, e sentada ali no canto escutava toda essa valsa no silêncio. Apaixonava-se aos poucos ...com a rapidez efémera de um momento, e até a paixão lhe fugia. "Não vamos longe assim", dizia ela. Levantou-se e deixou o espectro do amor colado na poltrona, só para ir ver a Lua lá fora. Foi perguntar-lhe se ela dançava a valsa, convidou-a para dançar. E assim foi, longe do amor e com a paixão a escorrer-lhe pela mão, agarrou a Lua. Sabia que essa também lhe fugiria um dia, mas "Tu voltas", dizia-lhe em sussurro, "Volta, por favor, e traz-me de volta"."
Fiquei às escuras, e nem na rua há luz. Por momentos fiquei sem saber o que me seduz no entretanto. As escórias dos momentos comem o meu intento de paixão. E fica tanto pisado no chão. Resta-me a vontade de escrever como metamorfose nefasta de amor, ao ponto de forçar-me o apagar o seu fervor, no que me fica. Não me moldo a quereres, e se algum dia quis dizer tudo, escrever tudo, foi talvez aí que perdi. "Palerma" do insossego que sou, porque o sou, porque talvez não seja mais nada que o que escrevo. Ninguém vive para dizer que ama, e tal como me disse o meu pai, um dia destes, não devemos pôr o amor de ninguém ou por ninguém acima do amor de Deus. Deus quis amar-me e eu deixei, inconsciente, de receber esse amor, e Ó Deus, como lhe sinto falta.
Fico-me às escuras, na rua já há luz. Mas continuo sem saber o que me seduz neste entretanto que me comete o pecado de não saber mais. Oh Senhor, iluminai o meu caminho, fazei-me sonhar se o destino de não me querer é maior, se o Destino é maior, se é maior que o meu amor.
Fico-me às escuras, na rua já há luz. Mas continuo sem saber o que me seduz neste entretanto que me comete o pecado de não saber mais. Oh Senhor, iluminai o meu caminho, fazei-me sonhar se o destino de não me querer é maior, se o Destino é maior, se é maior que o meu amor.
terça-feira, 6 de maio de 2014
Não. Não vou fazer desta a centésima carta que te escrevi, nem vou usar mais que uma vontade. Coleccionei os teus sorrisos, os teus e os seus, os muitos, poucos, maiores ou menores, verdadeiros e até falsos. Deixei a caixa aberta e eles foram saindo, procurando outras vidas. Hoje soube perguntar-me de onde vêm as certezas de um sorriso com 92 anos. Aquele sorriso de tranquilidade que quase me julga por ser jovem e quase não sorrir. Sim, aquele sorriso que me faz questionar sobre o que é que afinal é verdadeiro no tempo. Um sorriso de paz, de aconchego.
Não vou fazer desta carta a centésima carta de amor que te escrevi, pois já não sei como isso se faz, cartas de amor. Deixei o amor guardado numa caixa aberta para quem o quisesse ir buscar. Chegou o fim do dia e ela estava vazia, mas amanhã haverá mais. Tenho a plena certeza de que amanhã haverá mais.
Coleccionar sorrisos... Ahahahah. E sem os roubar... Hilariante! E chegar ao fim do dia com a caixa do amor vazia. Pura, pura ironia!
Não vou fazer desta carta a centésima carta de amor que te escrevi, pois já não sei como isso se faz, cartas de amor. Deixei o amor guardado numa caixa aberta para quem o quisesse ir buscar. Chegou o fim do dia e ela estava vazia, mas amanhã haverá mais. Tenho a plena certeza de que amanhã haverá mais.
Coleccionar sorrisos... Ahahahah. E sem os roubar... Hilariante! E chegar ao fim do dia com a caixa do amor vazia. Pura, pura ironia!
sexta-feira, 14 de março de 2014
Cruzam-lhe quereres sobre os sonhos, talvez se fique por ali esta noite, onde nada mais lhe pode tocar. Sem a permissão de si mesma, permanece horas a cantar silenciosamente longe do ouvido de quem gostaria que ficasse atormentado pelo tom da sua voz. Sabe lá ela que talvez secretamente o seja. "Hoje não escrevo poesia", pensa. Quando pega no papel, no lápis e no sentimento só ele lhe chega aos sentidos, como antigamente, como num antigamente recente. Toda a sua poesia se resume, hoje, a isso. Não consegue escrever desde que na ponta dos seus dedos ficou gravado o suor do frio d'O outro corpo... um suor frio.
Estende ligeiramente o braço na inspiração de lho dizer, mas as palavras não existem nem longe, e mente-lhe o olhar que alcoolicamente registou como comprometido ao sentir, descomprometido se afastou. E do teste, retrai a mão, retrai as palavras, retrai a palavra. Queria dançá-lo, mas nunca o levou a dançar. Faltou-lhe o espaço, faltaram-lhes os passos, sobrou-lhes o amor, da paixão em canções silenciosamente caladas, secretamente cantadas. Nada mais fica. Cruzam-se quereres sobre os sonhos, faltam quereres sobre os olhos, sobram quereres.
Estende ligeiramente o braço na inspiração de lho dizer, mas as palavras não existem nem longe, e mente-lhe o olhar que alcoolicamente registou como comprometido ao sentir, descomprometido se afastou. E do teste, retrai a mão, retrai as palavras, retrai a palavra. Queria dançá-lo, mas nunca o levou a dançar. Faltou-lhe o espaço, faltaram-lhes os passos, sobrou-lhes o amor, da paixão em canções silenciosamente caladas, secretamente cantadas. Nada mais fica. Cruzam-se quereres sobre os sonhos, faltam quereres sobre os olhos, sobram quereres.
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