Cruzam-lhe quereres sobre os sonhos, talvez se fique por ali esta noite, onde nada mais lhe pode tocar. Sem a permissão de si mesma, permanece horas a cantar silenciosamente longe do ouvido de quem gostaria que ficasse atormentado pelo tom da sua voz. Sabe lá ela que talvez secretamente o seja. "Hoje não escrevo poesia", pensa. Quando pega no papel, no lápis e no sentimento só ele lhe chega aos sentidos, como antigamente, como num antigamente recente. Toda a sua poesia se resume, hoje, a isso. Não consegue escrever desde que na ponta dos seus dedos ficou gravado o suor do frio d'O outro corpo... um suor frio.
Estende ligeiramente o braço na inspiração de lho dizer, mas as palavras não existem nem longe, e mente-lhe o olhar que alcoolicamente registou como comprometido ao sentir, descomprometido se afastou. E do teste, retrai a mão, retrai as palavras, retrai a palavra. Queria dançá-lo, mas nunca o levou a dançar. Faltou-lhe o espaço, faltaram-lhes os passos, sobrou-lhes o amor, da paixão em canções silenciosamente caladas, secretamente cantadas. Nada mais fica. Cruzam-se quereres sobre os sonhos, faltam quereres sobre os olhos, sobram quereres.
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