Hoje apareci porque me faltava preencher uma página em branco. Fiz por recalcular abismos e tecer conquistas felizes para me acreditar numa grande queda. Apareci sem querer, talvez porque me faltasse a vontade, talvez porque a defendia demais, apareci para te escrever uma qualquer carta que nunca lerias desta página em branco. Fiz-me cega, surda e muda para deixar de interpretar castigos, e me fazer crer que não existem tais coisas, castigos. E agora bêbada da minha razão estou inconsciente a escrever esta qualquer carta (mais uma) que sinto de impossível leitura, quais palavras qual quê!
Senti a mesma energia quando te toquei, a mesma energia que senti ao dar a mão a um corpo morto que tanto tinha para dar. Pois, ainda me recordo. Era a minha avó, que me fez sorrir de emoção mesmo no leito de morte, há já uns anos. E eu senti o mesmo quando te toquei. Será que morremos? Será que morremos sem sequer termos nascido? E quando eu morrer, e tu morreres, teremos a mesma emoção e a mesma energia para dar? Não me suicido a pensar nisso, mas já morri duas vezes nos teus braços, longe deles, quero dizer.
Hoje apareci porque me fazia falta esquecer, e a bêbada razão teima em fazer-se perder enquanto o digo, se o digo, pois não entendes. Já morreste quantas vezes? Eu, muitas. Já morri muitas vezes, de morte matada e de morte morrida, já mo propositei e talvez seja a hora de morrer de novo, mas não sei aonde. Dá-me ideias. Dá-me ideias que sejam longe dos teus braços e que me tornem fomenta de viver de novo. Porque não dá para morrer de novo assim.
Perdoa-me usar esta palavra tantas vezes, sei que dói. Sei que é egoísta. Ou soa como tal. Ao menos sentiste? Diz-me, sentiste? Porque é eterno purgatório andar à deriva com tanta energia para dar. Não lhe chamo amor, chamo energia. O amor tenho eu a quem o entregar.
Hoje joguei ao jogo do espelho, aquele que se joga dois a dois e em que se repetem os movimentos do companheiro, sem qualquer toque físico. Hoje fui eu que "comandei". Foi a isso que jogámos? Pois tenho a dizer-te que fizeste batota, fizemos batota, tocámo-nos. Mas ainda não consigo entender quem comandou, quem copiou os passos de quem.
Hoje apareci. Vim escrever sobre coisas eruditas da minha biblioteca de sentimentos que ninguém quer consultar. E tu, que gostas tanto de ler também te recusaste.
Afinal o que é fugir. Afinal o que é fingir? Não consigo fingir mais, foge-me a criatividade pelo umbigo. E eu passo horas a olhar p'ro meu umbigo para a tentar agarrar, o raio da criatividade que não me faz falta nenhuma. Não sei fingir e tu pediste-me para não fugir, e eu fiquei... agora, sozinha, a olhar p'ro meu umbigo, rica maneira de passar o tempo.
Mais um texto escrito numa página em branco que me faz gastar mais um momento em que podia fingir, ou fugir, ou tudo aquilo que me pediste ou não para fazer. Um momento em que te podia receber com retorno. Ciente de mim, nem sei em que me torno.
recebo o texto, como se fosse meu, sabendo que não é. sozinha? "Somos sozinhos com tudo o que amamos."
ResponderEliminarbelo texto.
A solidão é realmente um termo muito relativo. Obrigada.
ResponderEliminar