Não saberei como escrever uma tese sobre a vida, um mistério tão volátil. Hoje acho que sei que os que a sofrem vivem-na mais, no sentido da sua sensibilidade. Os que a criam vivem-na duas vezes mais, vivem a que sofrem e a que inventam para curar, há sempre uma vida a mais para curar na mesma vida. Se não houver criatividade no seu indivíduo, como dono, haverá alguém disposto a criar outra vida p...ara mais alguém. Acho que há sempre vontade em nós no mais profundo de inventar novas vidas, ou antes houvesse, para oferecer. "Toma, é para ti, criei com o meu coração e estou a oferecer-te, poderás precisar dela, poderás não precisar, mas uma vida a mais dá sempre jeito. Cuida-a, também eu a cuidei para ti.". Há os que não sabem viver, mas nunca ninguém inventou um tratado sobre como viver a vida, que conversa é essa de vida fisicamente saudável, de mentes rectas, que conversa é essa de se evitar os vícios físicos ou mentais, se na grande parte das vezes não conseguimos acompanhar mente e corpo ou descodificar amor e carinho. Tudo difere. Por vezes gostava de ser dáltonica nem que fosse por um dia para escrever a tese sobre como viver a vida com cores diferentes. E assim como cega, ou surda ou até muda, nem que fosse por um dia (porque no fim de contas aceito-me bem com a variedade de sensações que me foram concedidas nesta vida). Num sopro, empurrão ou não, deixamo-nos ser fracos ou fortes demais, ingratos ou agradecidos por toda a pouca ou muita vida que vivemos. Mas não pretendo escrever uma tese sobre a vida, seria puramente egoísta tal como ela hoje nos obriga a ser. Aceito-me. Aceitar-me-ia em casamento mil vezes, tantas como me pediria em divórcio, mas seria eu, consciente de mim. Não posso oferecer mais que isso. A mim mesma, até. Estou aqui, hoje. Tenho uma vida guardada para amanhã.
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