terça-feira, 20 de maio de 2014

"Gostava de ser personagem de romance, que me escrevessem, que me descrevessem, que soubessem de mim ínfimo pormenor, mas já que o não posso, escolher-te-ia a ti, na inocência que não tens, ou que o teu corpo não sabe mentir. Fazer de ti altivo mendigo de sentimentos prescritos à tua gerência embriagada de sentir. E achares-te menos que a tua essência, porque tu, sim, necessitas ser escrito, descrito, perceptível aos olhos de quem não te sabe ler."(29.04.2014)
"Mas quem sou eu, se alucino no mais crente dos caminhos, ao achar que sou dona dos meus domínios por perder a razáo feita do que é meu? Deixo-me antes dormir que é o melhor que faço, ao menos sou dona do meu cansaço, o tenho por mim pois ninguém mo deu."
"Li hoje já não sei bem onde que a saudade é mesmo assim: resulta das lacunas de aceitação, da falta de cumprimento das promessas que nos fazemos. Li num sítio qualquer, já não sei onde, que a saudade não passa disso, dependencia de carinhos que não soubemos agarrar na hora certa, que a saudade não passa de uma tormenta atormentada do que não ficou, do que não nos deixámos ter. Li já não sei bem onde que a saudade não passa." (13.05.2014)
"Hoje não quero admitir que não sei o que escrever. Hoje escreveria até adormecer se a vontade de dormir o exigisse. Hoje escreveria só para não ter que pensar, escreveria linhas na minha mão: linhas curvas, linhas rectas, linhas em zig zag, uma linha de comboio para viajar, um carrinho de linhas para coser as feridas do coração, uma linhagem de reis para aprender a reinar, tantas e tantas linhas que escreveria na minha palma! O três em linha para me jogar e mais duas ou três linhas até dizer "Mais não!". Tudo para disfarçar as linhas que nela ficaram da tua mão." (13.05.2014)
"Sentou-se ali no canto porque precisava de agarrar o silêncio. Ao menos o silêncio. O tempo, o calor, o suor, o amor e o fado, até o fado, lhe escorriam pelas mãos, como insoluveis nas suas palmas, fugiam ao ritmo de uma valsa interminável. Uma valsa que se sujeitava a dançar sozinha para não se perder no passo, e sentada ali no canto escutava toda essa valsa no silêncio. Apaixonava-se aos poucos ...com a rapidez efémera de um momento, e até a paixão lhe fugia. "Não vamos longe assim", dizia ela. Levantou-se e deixou o espectro do amor colado na poltrona, só para ir ver a Lua lá fora. Foi perguntar-lhe se ela dançava a valsa, convidou-a para dançar. E assim foi, longe do amor e com a paixão a escorrer-lhe pela mão, agarrou a Lua. Sabia que essa também lhe fugiria um dia, mas "Tu voltas", dizia-lhe em sussurro, "Volta, por favor, e traz-me de volta"."
Fiquei às escuras, e nem na rua há luz. Por momentos fiquei sem saber o que me seduz no entretanto. As escórias dos momentos comem o meu intento de paixão. E fica tanto pisado no chão. Resta-me a vontade de escrever como metamorfose nefasta de amor, ao ponto de forçar-me o apagar o seu fervor, no que me fica. Não me moldo a quereres, e se algum dia quis dizer tudo, escrever tudo, foi talvez aí que perdi. "Palerma" do insossego que sou, porque o sou, porque talvez não seja mais nada que o que escrevo. Ninguém vive para dizer que ama, e tal como me disse o meu pai, um dia destes, não devemos pôr o amor de ninguém ou por ninguém acima do amor de Deus. Deus quis amar-me e eu deixei, inconsciente, de receber esse amor, e Ó Deus, como lhe sinto falta.
Fico-me às escuras, na rua já há luz. Mas continuo sem saber o que me seduz neste entretanto que me comete o pecado de não saber mais. Oh Senhor, iluminai o meu caminho, fazei-me sonhar se o destino de não me querer é maior, se o Destino é maior, se é maior que o meu amor.

terça-feira, 6 de maio de 2014

Não. Não vou fazer desta a centésima carta que te escrevi, nem vou usar mais que uma vontade. Coleccionei os teus sorrisos, os teus e os seus, os muitos, poucos, maiores ou menores, verdadeiros e até falsos. Deixei a caixa aberta e eles foram saindo, procurando outras vidas. Hoje soube perguntar-me de onde vêm as certezas de um sorriso com 92 anos. Aquele sorriso de tranquilidade que quase me julga por ser jovem e quase não sorrir. Sim, aquele sorriso que me faz questionar sobre o que é que afinal é verdadeiro no tempo. Um sorriso de paz, de aconchego.
Não vou fazer desta carta a centésima carta de amor que te escrevi, pois já não sei como isso se faz, cartas de amor. Deixei o amor guardado numa caixa aberta para quem o quisesse ir buscar. Chegou o fim do dia e ela estava vazia, mas amanhã haverá mais. Tenho a plena certeza de que amanhã haverá mais.
Coleccionar sorrisos... Ahahahah. E sem os roubar... Hilariante! E chegar ao fim do dia com a caixa do amor vazia. Pura, pura ironia!