quarta-feira, 9 de outubro de 2013

Se pensar era o que a cegava, ela queria apenas deixar de ouvir o relógio que cronometrava o pensamento até chegar ao fim. Seria sem querer, talvez, que absorvia a falta de sorrisos do mundo e ainda assim criava a fantasia de sorrir para o desconhecido. Fazia-lhe bem a esperança de receber um meio-sorriso de volta, ou da sua ilusão.
Falam pouco as palavras, acha. E a emoção de um abraço não correspondido preenche-lhe os sonhos, como se vivesse simplesmente para dar. Curiosamente percebo-lhe a carência, de tanto gostar já não sabe amar, de tanto dar amor, já não gosta. Assim se cultiva o vazio, como o saldo de uma conta imaginária, é o desemprego que leva à falta de fundo para investimento. Parece-me. Mas ela volta-se e sorri.

sexta-feira, 4 de outubro de 2013

Evade-me a essência, o que existe. E, sem palavras, gosto de desenhar o frio que me toca quando me deixo voar. Nada mais se sabe na eloquência da realidade, umas vezes a cores, outras a preto e branco, ficam-se as loucuras por escrever, talvez pelo puro egoísmo do medo de sentir. No fim, nada se sabe além do instinto. A pergunta será sempre a mesma, sobre o amor, e perguntar o que é ladrilha o caminho para a insensibilidade quando no fundo ninguém sabe o que é o amor. Mas ninguém sabe o que é o amor.
Amam-se duas ou três realidades diferentes, o querer amá-las torna o sujeito maior. O querer somente amar realidades diferentes faz com que tenhamos mais realidades, mais cor, mais sentido (não, sentido talvez não), mas mais coesão para oferecer amor além da própria realidade que é efémera, completamente efémera. Não vale mentir, então. Não vale mentirmo-nos.

domingo, 22 de setembro de 2013

Violas-me os sentidos. Tudo. Fica demais o tempo onde nada existe, fica demais o momento do vazio, do que percorre os sentimentos sem razão. A razão sem sentimentos deixa de saber o que diz, na obsessão de querer ser apagada de um dos mundos. Violas-me os sentimentos, deixas tudo menos o que fica. Nada fica, nada existe. E tu? não sabes sequer compreender um toque, um querer mais ou menos, no meio dos teus quereres, no meio dos teus quereres violas-me os sentidos, tão perto da realidade como da utopia. Fico-me na utopia, e tu, tão longe um do outro, tão longe e tão perto de mim, deixas-te gastar na realidade.

quarta-feira, 18 de setembro de 2013

Foste tu que me ensinaste a sentir como sente uma rosa. Do seu botão, ao seu brotar, à sua prosa. Ensinaste-me a fazer dela poesia. Foste tu que me deixaste o seu perfume, na sua história, e serás tu recordada em cada uma que tocar ou que me tocar. Fazer-me-ás falta quando não houver mais rosas para cheirar. Desenhaste uma rosa no meu peito, no lugar do coração, e lá deixaste a tua mão. Saber-te-ei completa, e saber-me-ei completa por teres sido sempre tu a minha mais linda rosa.
Dancei. Dancei tudo o que tinha, entre histórias, ilusões e submissões ao amor. Dancei tudo. No chão ficam vestígios de sorrisos e decorações que caíram do corpo que já não é meu. E ainda assim, nada me cansa. No sonho fica a vontade de sonhar mais. Esse olhar onde se escondem danças não sabe muito mais que histórias. Sonho que mas contes em passos, trocas de sentidos, e submissões desse chão onde te quero ensinar a dançar. Eu dancei tudo, tudo o que tinha, e na vontade de sonhar mais com o corpo que já não é meu, peço-te um passo emprestado na ilusão de um sorriso nesse olhar. Dança. Dança tudo.

quinta-feira, 12 de setembro de 2013

Desenho quase rigorosamente desejos que não sei se tenho. Não me apetece falar de amor. Ao invés de tudo, as esperanças conciliadas com o sossego fazem surgir desapegos, e as vontades contradizem-se em suspiros sem volta, na revolta.
Esqueço ou tento esquecer tudo o que te disse, e nos salpicos de cada palavra avivada na memória, ficam os sorrisos torturados de esperanças sem razão. Quase não fica nada. Esconder suspiros é quase como suster a respiração num desmaio final. Cair nos braços do chão e adormecer na esperança da falta de esperança de sonhar novamente. Mas sonho. Sonho sem razão, porque sonhar com razão seria cronometrar sentimentos e sensações ao soar do coração. Não, não me apetece falar de amor.

Enfim, adormeço antecipadamente num sorriso que não se vê, pelo descansar de outros sorrisos. Nada de esperanças. Num egoísmo impreciso deixo-me querer mais, sem querer falar de amor, ou sequer senti-lo. Esqueço ou tento esquecer tudo o que te disse, até uma próxima vez, quando te falar de amor.

terça-feira, 20 de agosto de 2013

Quase me enganei pelos teus olhos, quase impressionei o pouco que restava do que algum dia designei de esperança. Agora é noite, e fico a pensar que apenas as estrelas me devem o seu brilho, na loucura acentuada de nunca mais querer usar isso que é - loucura - nem por gestos, nem por palavras.
Talvez a solidão das estrelas compense. Já fui do tempo das cartas, onde, mais que um nome, a própria letra enclausurava restos de memórias, saudades e almas partilhadas, restos de amor. Motivações, talvez. Hoje os restos de amor ficam nos corpos, apagam-se no correr da água do chuveiro, e as emoções entopem o ralo por nada mais se poder fazer com elas. Na hora, são grandes, nos dias seguintes, pouco ou nada pode ficar. Tudo porque hoje não se escrevem cartas, não há paciência para receber respostas, emoções, memórias, saudades, motivações, restos de amor. Não há paciência para receber, nem mais para escrever de volta, ou criatividade. Tudo está cingido, restrito a toques, olhares sentimentos, coisas que não se dizem porque o que a palavra de amor cria hoje é medo: medo de sentir, medo de errar, medo de não se ser capaz de a justificar, medo de a receber de volta envolta em simples medos. Então a palavra de amor já não se diz como antes, já não se escreve, e o que se sente fica na corda bamba por atravessar, até cair.
O que fica, então? Cores, cheiros, dores. De olhares, toques. E os amores? O que é feito dos amores?
Dêem-me papel, escrevo-os a todos! Dêem-me palavras, digo-os a todos. Nem que me livre das esperanças.