Quase me enganei pelos teus olhos, quase impressionei o pouco que restava do que algum dia designei de esperança. Agora é noite, e fico a pensar que apenas as estrelas me devem o seu brilho, na loucura acentuada de nunca mais querer usar isso que é - loucura - nem por gestos, nem por palavras.
Talvez a solidão das estrelas compense. Já fui do tempo das cartas, onde, mais que um nome, a própria letra enclausurava restos de memórias, saudades e almas partilhadas, restos de amor. Motivações, talvez. Hoje os restos de amor ficam nos corpos, apagam-se no correr da água do chuveiro, e as emoções entopem o ralo por nada mais se poder fazer com elas. Na hora, são grandes, nos dias seguintes, pouco ou nada pode ficar. Tudo porque hoje não se escrevem cartas, não há paciência para receber respostas, emoções, memórias, saudades, motivações, restos de amor. Não há paciência para receber, nem mais para escrever de volta, ou criatividade. Tudo está cingido, restrito a toques, olhares sentimentos, coisas que não se dizem porque o que a palavra de amor cria hoje é medo: medo de sentir, medo de errar, medo de não se ser capaz de a justificar, medo de a receber de volta envolta em simples medos. Então a palavra de amor já não se diz como antes, já não se escreve, e o que se sente fica na corda bamba por atravessar, até cair.
O que fica, então? Cores, cheiros, dores. De olhares, toques. E os amores? O que é feito dos amores?
Dêem-me papel, escrevo-os a todos! Dêem-me palavras, digo-os a todos. Nem que me livre das esperanças.
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