sexta-feira, 14 de março de 2014

Cruzam-lhe quereres sobre os sonhos, talvez se fique por ali esta noite, onde nada mais lhe pode tocar. Sem a permissão de si mesma, permanece horas a cantar silenciosamente longe do ouvido de quem gostaria que ficasse atormentado pelo tom da sua voz. Sabe lá ela que talvez secretamente o seja. "Hoje não escrevo poesia", pensa. Quando pega no papel, no lápis e no sentimento só ele lhe chega aos sentidos, como antigamente, como num antigamente recente. Toda a sua poesia se resume, hoje, a isso. Não consegue escrever desde que na ponta dos seus dedos ficou gravado o suor do frio d'O outro corpo... um suor frio.
Estende ligeiramente o braço na inspiração de lho dizer, mas as palavras não existem nem longe, e mente-lhe o olhar que alcoolicamente registou como comprometido ao sentir, descomprometido se afastou. E do teste, retrai a mão, retrai as palavras, retrai a palavra. Queria dançá-lo, mas nunca o levou a dançar. Faltou-lhe o espaço, faltaram-lhes os passos, sobrou-lhes o amor, da paixão em canções silenciosamente caladas, secretamente cantadas. Nada mais fica. Cruzam-se quereres sobre os sonhos, faltam quereres sobre os olhos, sobram quereres.

terça-feira, 14 de janeiro de 2014

Se não quiseste profanar o carinho que o esquecimento me dá, deixa-me apenas esquecer o momento de amor que a paixão não me dá. Sinto saudade do papel vazio e da frieza que me dá calor, sinto saudade da vida que me dá não querer ao invés da morte que me castra cada vez que desejo ou me desejo.
Se não quisesse profanar o impossível, não seria na realidade o que não posso ser; deixar-me incutir pelo passível de ser perfeito.
Ali estavas tu, onde me deixas deixar-te ser mais que o que és, e me trocas as voltas aos sonhos.
Se eu não quisesse profanar o impossível, não deixaria os sonhos serem mais que o que posso ser, que o que posso ter.
Se não quisessemos profanar o impossível, e talvez não seja possível, não me trocarias as voltas às palavras para não me deixares controlar pelas habilidades furtivas do tempo que é hoje mais duro que o chão.

quarta-feira, 1 de janeiro de 2014

Parece que somos mais fortes nas nossas fraquezas. Mas deram-nos a vida para escolhermos o que nos dá razão para viver, ou aquilo que define a nossa loucura. Pelo que passa então o nosso desejo, pela necessidade de sermos fortes vou fracos para lhe ceder? É isso que nos define, de onde vem a nossa loucura? Da nossa fraqueza ou da capacidade de assumirmos as nossas vontades?

domingo, 8 de dezembro de 2013

Pouso o papel e a caneta na mesa, e deixo que a história se escreva só assim. São as palavras largadas docemente entre conversas onde o olhar se desmente e há prisões entre carências. Sinto-me mais forte, fraca, capaz de segurar o meu mundo inteiro longe das suas demências. Amor. Incapaz de sonhar espero que algo me acenda a luz durante o sono, na inconsciência de me querer fazer sentir. Não interferi ao transferir as minhas últimas energias no último toque, e não consigo deixar-me tocar. Nem com palavras, nem com mentiras, quanto mais com amor.
A poesia custa a aceitar-se como meras palavras, e escrevê-la sem sentir faz mais sentido do que escrevê-la sem sentimento. Não fica qualquer perigo do seu tormento. E continuo sentada à espera que algo chegue. A campainha não toca e mais uma vez adormeço, talvez, sem objeto de sonho.

terça-feira, 12 de novembro de 2013

Eu tentei dizer. Tentei até sentir. Dentro de mim não és. Não sou. Tentei até, ser. Tentei até ser.

quarta-feira, 9 de outubro de 2013

Se pensar era o que a cegava, ela queria apenas deixar de ouvir o relógio que cronometrava o pensamento até chegar ao fim. Seria sem querer, talvez, que absorvia a falta de sorrisos do mundo e ainda assim criava a fantasia de sorrir para o desconhecido. Fazia-lhe bem a esperança de receber um meio-sorriso de volta, ou da sua ilusão.
Falam pouco as palavras, acha. E a emoção de um abraço não correspondido preenche-lhe os sonhos, como se vivesse simplesmente para dar. Curiosamente percebo-lhe a carência, de tanto gostar já não sabe amar, de tanto dar amor, já não gosta. Assim se cultiva o vazio, como o saldo de uma conta imaginária, é o desemprego que leva à falta de fundo para investimento. Parece-me. Mas ela volta-se e sorri.

sexta-feira, 4 de outubro de 2013

Evade-me a essência, o que existe. E, sem palavras, gosto de desenhar o frio que me toca quando me deixo voar. Nada mais se sabe na eloquência da realidade, umas vezes a cores, outras a preto e branco, ficam-se as loucuras por escrever, talvez pelo puro egoísmo do medo de sentir. No fim, nada se sabe além do instinto. A pergunta será sempre a mesma, sobre o amor, e perguntar o que é ladrilha o caminho para a insensibilidade quando no fundo ninguém sabe o que é o amor. Mas ninguém sabe o que é o amor.
Amam-se duas ou três realidades diferentes, o querer amá-las torna o sujeito maior. O querer somente amar realidades diferentes faz com que tenhamos mais realidades, mais cor, mais sentido (não, sentido talvez não), mas mais coesão para oferecer amor além da própria realidade que é efémera, completamente efémera. Não vale mentir, então. Não vale mentirmo-nos.