Pedro costumava sentar-se no canto do café mais escuro da cidade, e deixava-se estar onde não havia luz, no lugar que para ele seria o mais sombrio. Eu costumava sentar-me na mesa ao lado e ficar ali a aprecia-lo, desejando ser como ele, no seu jeito meio perdido de ser e de estar entre a sua caneta e o seu caderno, enquanto fazia rimas que roubava para que no fim tivessem uma sonoridade cativante.
É diferente a forma como vê o mundo. Parece que não sonha, mas deseja, e no que fica no seu olhar daquilo que ele vê no mundo, revejo-me. As palavras, no sentido que ganham ditas por si, parece que ficam sem sentido. Todos o admiram, todos o abominam, e ele o sabe. Talvez a sua aparência não mostre tudo o que tem para dar, ou a forma como se mostra, para oferecer. É uma incógnita no mundo, aquele mundo por si vivido; não sonha e delira. Sente-se feliz assim; agora que os fantasmas deixaram de assombrar o seu futuro, esquecem-se palavras ditas.
Pedro esconde-se no álcool e no café que lhe fornecem energias que precisa para não sonhar. Anestesia-o mais escrever do que beber, mas bebe para deixar de sentir e, bebendo, perde a vontade de escrever. Esquece-se, assim, do que vive. O Pedro é aquela personagem sobre a qual gostaria de escrever um livro. Fuma sem ser por vício, sendo o seu único e verdadeiro vício escrever. Na esperança que as suas palavras rimem, escreve quadras. Adoro observa-lo na sua ingenuidade de ainda ser novo e achar que sabe dizer o que se esquece de proferir, no propósito de nunca se sentir vazio.
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