sexta-feira, 13 de junho de 2014

Tens uma fita vermelha a cobrir-te o rosto. De nada te serve. Tenho uma fita negra a cobrir-me as costas. De nada me serve. Sinto a poesia que em ti escrevo. Não me escreves de volta. E eu em ti me cometo. Erro após erro, verdade após verdade, mede-se aos palmos. Os palmos em que te toco são, ao de longe, mais prosa que poesia, permito-te desenhar-me em tinta invisível, sabendo que não sabes sequer pintar abstratamente. E tudo se mente sem palavras.
Tenho uma fita vermelha a rasgar-me a mente.

terça-feira, 10 de junho de 2014

Já me rabisco nos caminhos velhos, já me rabisco de novo. Não sou eu que aqui fico hoje, não sou eu, o eu que fui. Vou reescrevendo outras conquistas além do que levei e deixei, trago outras na volta.
Onde estou, afinal? As colinas do meu sonho não me são familiares e eu estive ali tantas vezes. Prometo que me farei mulher, esposa de mim mesma, ao inconstante de renovar os passos e de me en...tender no papel onde já quase não sei ler a minha letra.
Sou mulher e quero apaixonar-me, quero apaixonar-me uma só vez e que seja de vez.
Devolve-me as fotografias que não me tiraste. Quero rabiscar-me nelas e, ao vê-las, não me sentir eu.
Porque hoje sou mulher, amanhã serei mulher, de mim, e depois? Depois posso já nem ter o céu."
Fui encontrar a lua cega lá no céu, pelas nuvens, já sem ver nem deixar ver. As pegadas já calcadas tantas vezes viram solo intacto ao olhar do prazer, e criam-se vontades, queriam-se vontades, e a lua, cega em torno do não querer. Fui encontrá-la cega no seu caminho à casa da memória, indecente sem-abrigo, rezam pela sua impertinência de não ser gente, a lua, e é tanta gente que ninguém lhe dá on...de dormir. Tenho pena da lua, hoje cega, qual castigo o dela de não poder dormir. Lamento, como queria dar-lhe um teto, algo tamanho, concreto, quem sabe, fazê-la rir.. Mas hoje me deixa, e a lua, presa, tão longe da rua, lá saberá persistir. Amanhã virá mais cheia, de amor e desgraça alheia, tamanha sina a da lua, que tudo pode sentir.

sexta-feira, 30 de maio de 2014

Hoje apareci porque me faltava preencher uma página em branco. Fiz por recalcular abismos e tecer conquistas felizes para me acreditar numa grande queda. Apareci sem querer, talvez porque me faltasse a vontade, talvez porque a defendia demais, apareci para te escrever uma qualquer carta que nunca lerias desta página em branco. Fiz-me cega, surda e muda para deixar de interpretar castigos, e me fazer crer que não existem tais coisas, castigos. E agora bêbada da minha razão estou inconsciente a escrever esta qualquer carta (mais uma) que sinto de impossível leitura, quais palavras qual quê!
Senti a mesma energia quando te toquei, a mesma energia que senti ao dar a mão a um corpo morto que tanto tinha para dar. Pois, ainda me recordo. Era a minha avó, que me fez sorrir de emoção mesmo no leito de morte, há já uns anos. E eu senti o mesmo quando te toquei. Será que morremos? Será que morremos sem sequer termos nascido? E quando eu morrer, e tu morreres, teremos a mesma emoção e a mesma energia para dar? Não me suicido a pensar nisso, mas já morri duas vezes nos teus braços, longe deles, quero dizer.
Hoje apareci porque me fazia falta esquecer, e a bêbada razão teima em fazer-se perder enquanto o digo, se o digo, pois não entendes. Já morreste quantas vezes? Eu, muitas. Já morri muitas vezes, de morte matada e de morte morrida, já mo propositei e talvez seja a hora de morrer de novo, mas não sei aonde. Dá-me ideias. Dá-me ideias que sejam longe dos teus braços e que me tornem fomenta de viver de novo. Porque não dá para morrer de novo assim.
Perdoa-me usar esta palavra tantas vezes, sei que dói. Sei que é egoísta. Ou soa como tal. Ao menos sentiste? Diz-me, sentiste? Porque é eterno purgatório andar à deriva com tanta energia para dar. Não lhe chamo amor, chamo energia. O amor tenho eu a quem o entregar.
Hoje joguei ao jogo do espelho, aquele que se joga dois a dois e em que se repetem os movimentos do companheiro, sem qualquer toque físico. Hoje fui eu que "comandei". Foi a isso que jogámos? Pois tenho a dizer-te que fizeste batota, fizemos batota, tocámo-nos. Mas ainda não consigo entender quem comandou, quem copiou os passos de quem.
Hoje apareci. Vim escrever sobre coisas eruditas da minha biblioteca de sentimentos que ninguém quer consultar. E tu, que gostas tanto de ler também te recusaste.
Afinal o que é fugir. Afinal o que é fingir? Não consigo fingir mais, foge-me a criatividade pelo umbigo. E eu passo horas a olhar p'ro meu umbigo para a tentar agarrar, o raio da criatividade que não me faz falta nenhuma. Não sei fingir e tu pediste-me para não fugir, e eu fiquei... agora, sozinha, a olhar p'ro meu umbigo, rica maneira de passar o tempo.
Mais um texto escrito numa página em branco que me faz gastar mais um momento em que podia fingir, ou fugir, ou tudo aquilo que me pediste ou não para fazer. Um momento em que te podia receber com retorno. Ciente de mim, nem sei em que me torno.

quinta-feira, 22 de maio de 2014

Não saberei como escrever uma tese sobre a vida, um mistério tão volátil. Hoje acho que sei que os que a sofrem vivem-na mais, no sentido da sua sensibilidade. Os que a criam vivem-na duas vezes mais, vivem a que sofrem e a que inventam para curar, há sempre uma vida a mais para curar na mesma vida. Se não houver criatividade no seu indivíduo, como dono, haverá alguém disposto a criar outra vida p...ara mais alguém. Acho que há sempre vontade em nós no mais profundo de inventar novas vidas, ou antes houvesse, para oferecer. "Toma, é para ti, criei com o meu coração e estou a oferecer-te, poderás precisar dela, poderás não precisar, mas uma vida a mais dá sempre jeito. Cuida-a, também eu a cuidei para ti.". Há os que não sabem viver, mas nunca ninguém inventou um tratado sobre como viver a vida, que conversa é essa de vida fisicamente saudável, de mentes rectas, que conversa é essa de se evitar os vícios físicos ou mentais, se na grande parte das vezes não conseguimos acompanhar mente e corpo ou descodificar amor e carinho. Tudo difere. Por vezes gostava de ser dáltonica nem que fosse por um dia para escrever a tese sobre como viver a vida com cores diferentes. E assim como cega, ou surda ou até muda, nem que fosse por um dia (porque no fim de contas aceito-me bem com a variedade de sensações que me foram concedidas nesta vida). Num sopro, empurrão ou não, deixamo-nos ser fracos ou fortes demais, ingratos ou agradecidos por toda a pouca ou muita vida que vivemos. Mas não pretendo escrever uma tese sobre a vida, seria puramente egoísta tal como ela hoje nos obriga a ser. Aceito-me. Aceitar-me-ia em casamento mil vezes, tantas como me pediria em divórcio, mas seria eu, consciente de mim. Não posso oferecer mais que isso. A mim mesma, até. Estou aqui, hoje. Tenho uma vida guardada para amanhã.

terça-feira, 20 de maio de 2014

Bem-vindo, Inverno. Agora que chegaste, as árvores já com folhagem deixam sombras à minha janela que, deseloquentes, me criam medos. Agora que chegaste não consigo distinguir a chuva que cai nos candeeiros de rua, se chove muito, se chove pouco. Bem-vindo. Deixo a janela fechada do quarto pois o frio repentino que chegou não me deixaria descansar, se a deixasse aberta, e mesmo aberta, tu não sairias. Bem-vindo, Inverno, que me molhas os pés quase na esperança de achares que é a única forma de te fazeres tocado. Tretas! Olá, e já que permaneces, traz também a neve, ela que fertiliza as colheitas para novos e felizes agoiros. Hidrata-me também a pele do rosto para que quando vier o Verão eu possa sorrir melhor. Não te faças de cobarde, já que nessas tuas cobardias de só apareceres excêntrico do mundo deixas tudo virado do avesso. Se queres, leva também as folhas fresquinhas das árvores lá fora, que necessito para me acalmarem o calor nos dias mais quentes que me trazes, Inverno.
Fica, se queres conforto. Rouba-o violentamente à minha pele, leva tudo. E o mar, já visitaste o mar? Porque teimas em ficar aqui, aconchegado no meu calor? Que sejas bem-vindo, afinal. Sou hospitaleira, recebo-te com agrado, afinal. E leva tudo, quando saíres. Leva o frio também.
"Gostava de ser personagem de romance, que me escrevessem, que me descrevessem, que soubessem de mim ínfimo pormenor, mas já que o não posso, escolher-te-ia a ti, na inocência que não tens, ou que o teu corpo não sabe mentir. Fazer de ti altivo mendigo de sentimentos prescritos à tua gerência embriagada de sentir. E achares-te menos que a tua essência, porque tu, sim, necessitas ser escrito, descrito, perceptível aos olhos de quem não te sabe ler."(29.04.2014)