segunda-feira, 23 de julho de 2012

Vou pensando desenhos. Faltam folhas de papel quase suficientes para tornar mais lúcido o seu significado. Nos desenhos que penso perdem-se valores a cada traço e, perdidamente, as cores que se imaginam neste retrato de mim a preto e branco. Num último suspiro de ansiedade esvazio curiosamente cada linha; curiosamente por querer preencher, uso o tracejado por querer deixar passar, prendendo.
Não vou falar de ti ou de poucos carinhos, nem sequer de poucos caminhos, não vou falar. Vou pensando desenhos e anseio, simplesmente, andar. Os desejos, postos de lado, não me deixam ficar, e aos poucos vou adormecendo a vontade de não amar.

terça-feira, 26 de junho de 2012

Não tenho o mundo senão páginas meias-escritas, meias vazias, quase apagadas de sentimentos que não se completam. Ficar assim, onde as palavras não têm letras, deixa com desdém a vontade de querer fingir ser menos, ter menos. Ter mais que o mundo em páginas meias-escritas, palavras meias-pronunciadas, desejos mal entendidos e desenhos esboçados em poucos sorrisos, faz-me assim deixar de querer sonhar.
Sonhar faz-me hoje pouco, toca-se menos, faz-se despedaçado de sons e movimentos, em segundos de acordar, em pequenos segundos de se esquecer. Um dedo molhado em aguarela escorrega-me a cegueira deste mundo que não consigo escrever. O que espero? Desenhar no chão com passos o mundo, ao andar, verter a água do copo da tinta com a qual não sei pintar, desiludir o peito em esperanças que se abafam e na falta de paciência pela multidão de personagens, em sonhos, afogar-me. Deixar então de sonhar.
Não quero o mundo senão páginas meias.escritas, e adormecer onde o barulho ensurdece.

segunda-feira, 9 de abril de 2012

Vou desenhando com gestos imaturos no meu ventre: sentimentos. Reza-me a loucura que permaneça assim, em mim, desalojada de amor ou desperdícios.
Pedaços de pele vão caindo como se no meu peso já não se sustivessem. Quase como que para ladrilhar o meu caminho, vou raspando-a, permanecendo assim no mais alto do meu ser. São pequenos gestos que dão mais cor ao chão que piso, pequenos gestos como esse, de me deixar cair, para me ladrilhar.
Não reconheço hoje a minha letra, e numa euforia imprecisa de me vir em tudo o que escrevo, não me deixo subjugar pela necessidade de nela me ver escrita.
Recebo-me na minha mão mais do que nunca na boca dos outros. Recebo-me na minha mão. Talvez no meu corpo. na minha grandeza e pequenez: recebo-me, grito-me, suspiro-me, venho-me.
São pequenos gestos, simples e pequenos gestos que me fazem duvidar se realmente me tenho. Pequenos gestos. São loucuras, calores, quase desesperos. Quase que me tiram, quase que me roubam o prazer, quase que me fazem não querer escrever.
Quase que me desprendo da natureza, quase que deixo de criar caminhos, cheiros, odores, toques, suspiros, amores. Quase que me desprendo da natureza no que ela não comporta: franqueza, fraqueza. Perdem-se quase ganhando esses pequenos gestos.
Toco-me criando em mim a dúvida: se me sinto, se me minto. Deixo de me tocar no mesmo instante, como que arrancando cabelos para tecer esta teia, para prender a veia, para cair. Para entrançar a corda. Para subir.
Vou deixando de reconhecer faces, fases, luas. Vou deixando de reconhecer palavras: despidas ou nuas.
Preocupam-me desabafos inconsequentes, sem causas ou rumores, que permanecem silenciosos neste cálice de vinho do Porto que se esquece. Desabafos inconsequentes. Imperdoáveis, frios, talvez quentes, de palavras que se esquecem, que se perdem. Que se largam. E as vontades que albergam. Ou desvontades.
Quase como de olhos fechados, na doçura de algo que amarga, vão-se esquecendo, mais uma vez, as palavras. Como suspiros.
Mas nesta vontade de ser sedutora enquanto as escrevo, torno-me invisível. Não sei o que sou, não sei quem sou, e anestesio-me assim como se fosse a única forma de me sentir. Exploro este meu narcisismo de escuro, narcisismo de negro, narcisismo de nada. De nada. Não se percebe e não se é.
Vou-me tornando escrava da solidão, da multidão. Escrava do ar que respiro, escrava de presenças, como se, ausentes, preenchessem cada espaço gelado, cada pedaço desta minha vontade de ser, de ter, nada.
É-me esta vontade no frio. na loucura, nas tremuras, no que escrevo, e não, nunca se verá.

sábado, 4 de fevereiro de 2012

Talvez na insegurança deste lugar o tempo se faça sentir. Nada parece existir aqui, palavras, sonhos, angústias ou felicidades. De tudo, talvez apenas palavras, escritas nos livros que ninguém lê com vontade de sonhar. Dentro de cada um, a preto no branco, toda uma vontade desesperada mas imatura de ir mais longe e encontrar cor. Na resolução do que não existe, nada mais posso fazer. Sento-me, de novo, na cadeira da insónia para tentar sonhar. Aos poucos esta adaptação acaba por me impedir de o fazer, mas sonhar é sem dúvida algo de que preciso para viver. É talvez ensurdecedora esta vontade, pelo que volto aquele quarto para poder desenhar naquelas paredes. Parece-me incompreendido o objectivo: esquecer. Sonhar de novo, querer. Mas sonhar de novo. Repetir sonhos é quase impossível. Talvez a cólera de o querer, talvez a de tanto o evitar sequer imaginar. Nesse quarto, sento-me à secretária. Transporto-o comigo, mas deixando-o permanecer nesse lugar. Plena de objectivos centro-me apenas naquele que é sonhar, apesar de saber que nada justifica fazê-lo sozinha. Todo o mundo se afasta neste objectivo de esquecimento. Permito-me deixar de querer, não conseguindo fazê-lo.

domingo, 31 de julho de 2011

Sento-me na cadeira da insónia porque o tempo voa entre as mãos de quem não tem asas para o acompanhar. É súbita a forma como permanece lentamente o desassossego, é razia a forma como deixa o corpo sem pele, sem revestimento, sob uma série de impensáveis agressões. Francamente move-se o tempo parado na bolha de que todos são donos, e de lá promete-se não sair mais nada, mas foge a opacidade dessa bolha na pequenês de um mundo que não se revela, que apenas se avalia. Sinto assim essa dor de úlcera que ultrapassa qualquer sono, qualquer sonho. Nem me permito falar em sonhos. Há uma planta que foi semeada no destino, que acaba de morrer, e deixa-se assim permanecer, morta, na falta de consciência da necessidade de água ou alimento, já não se deixa sequer ser regada, ser adubada. Já não cresce.
Sento-me na cadeira da insónia para falar de uma planta que não vive, porque um dia foi um sonho.

sexta-feira, 22 de julho de 2011

Vivo entregue a este mundo, que claustrofóbicamente não consegue responder ao que sinto. E sem pedir mais, restam-me apenas as palavras como refúgio de um sonho que sonho cegamente, e de seguida, desfaço, como um tiro bem no meio da alma. Esta alma que não me dá calma e se repete constantemente numa espiral sem razão, sente-me como uma nau a afundar num mar sem ondas. Forma-se, assim, um corropio de emoções que se confundem. Construo então uma frieza naquilo que fica do que alguma vez foi doce, do que alguma vez criou esperança, semeando-me no desassossego.
Aos poucos esta tristeza transforma-se em raiva, numa raiva desse mundo que não me responde, que não me corresponde. Hoje entregar-me-ia a uma sala sem portas ou janelas, nua, nua de mim, nua de tudo. Sem deixar que a criatividade me confunda, sem me deixar envolver por metáforas. Mas porra, que preciso delas para viver.
Não consigo vencer o mundo, não o consigo vender na esperança de algo em troca. Deixo-me, então, adormecer no chão desta varanda, olhando para o gradeamento que me segura, pensando que talvez não me sossegue o insossego. Deixo-me adormecer, sem o querer, sem conseguir, mas nada me mantém acordada. Tento ouvir o mundo, mas nada, nada, nada ele me diz. Não vou sonhar.